R7 Meu Estilo #PrimeiroAssedio: campanha encoraja denúncias e dá voz para vítimas, diz especialista

#PrimeiroAssedio: campanha encoraja denúncias e dá voz para vítimas, diz especialista

Assistente social ressalta que compartilhar histórias de abusos ajuda a superá-los

  • R7 Meu Estilo | Nathalia Ilovatte, do R7

Em resposta aos comentários abusivos feitos por homens nas redes sociais, e direcionados a uma criança de 12 anos, participante do reality show Masterchef Júnior, a hashtag #primeiroassedio chegou à lista dos tópicos mais comentados da semana no Twitter. Lançada pelo coletivo feminista Think Olga, a tag foi usada por homens e mulheres que quiseram dividir o primeiro assédio sofrido na infância. Foram mais de 29 mil relatos de abuso infantil, de cantadas a violência sexual.

O assunto gerou debates e acolhimento, mas também críticas e chacota. O músico Roger, do Ultraje a Rigor, foi um dos que tentou fazer piada com um assunto sério e grave, e sofreu retaliações.

Mas, para Suzi Soares, assistente social especializada em violência doméstica contra a criança e o adolescente e autora do livro Primeiro Amor - A História de Um Abuso, em que relata os estupros sofridos dentro de casa, o saldo da campanha nas redes sociais é positivo.

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— Com ações assim a gente consegue identificar demandas e encorajar denúncias. E a gente dá voz para essas meninas. Tendo voz elas vão se sentir valentes e poderosas para não permitir o próximo abuso. Isso produz um efeito grandioso. 

A especialista afirma também que falar sobre uma experiência como essa ajuda a lidar com ela.

— Quando a gente coloca o que aconteceu na área do esquecimento, fica no “é assim mesmo”. E não é o que deve ser feito, é preciso que a vítima resgate a autoestima e a própria dignidade.

Suzi fala como assistente social especializada, mas também como uma mulher que superou os traumas dos abusos sofridos. Por 14 anos foi violentada pelo próprio pai, dentro de casa. Mesmo depois de adulta, passava horas no chuveiro lavando as partes íntimas por se sentir suja, e só conseguia ir ao banheiro acompanhada pela própria filha. “Eu a acordava quando queria fazer xixi”, conta.

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Hoje, Suzi tem um livro publicado e prepara o segundo, é especialista no tema e dá palestras em congressos.

— O livro foi libertador. É um instrumento de cura. Não se trata de um livro de auto ajuda e não tem uma pretensão de utilidade pública, ele simplesmente conta uma história, me aproxima dessa mulher que foi vítima de abuso e conta como eu fui curada. Nele eu rasgo o verbo, relato como foi, descrevo cenas. Mas não com intuito sensacionalista.

A assistente social afirma que demorou a falar sobre o assunto porque sentia culpa e achava que ela, a criança que sofria abusos, estava traindo a própria mãe por ser estuprada pelo pai. Mas explica que o impacto de uma situação como essa é individual e pode variar, portanto, não é possível determinar como se sente uma criança na situação da participante do Masterchef Junior. E especular sobre o impacto desse assédio, para Suzi, também não é saudável. 

— Às vezes a sociedade é mais cruel que a própria violência. Se a gente já pressupõe um trauma e ela não fica traumatizada, deduz que ela também é inadequada.

Em geral, a superação de um trauma sexual é um processo difícil e doloroso. Aos pais de crianças que passam por situações, Suzi recomenda buscar ajuda profissional de psicólogos e psiquiatras, e fazer valer os direitos da vítima na justiça.

— Muitas das vezes o sofrimento fica com esses pais também, então um bom psicólogo, uma pessoa capacitada e de confiança, pode ajudar a família a elaborar isso e retomar a vida. Recomeçar é muito difícil.

Serviço

Suzi Soares - livroprimeiroamor@yahoo.com.br

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