Análise: Pela volta da vergonha na cara

Hoje em dia a ordem é não constranger, não chamar a atenção e não causar vergonha ou embaraço. Que tipo de pessoas estamos nos tornando?

Hoje em dia parece que se tornou errado chamar a atenção de alguém

Hoje em dia parece que se tornou errado chamar a atenção de alguém

Foto: Pixabay

Antigamente “criar vergonha na cara” era uma tarefa a ser desenvolvida diariamente, assim como tomar banho e ir à escola. Quando fazíamos alguma coisa errada, normalmente ouvíamos a pergunta: “você não tem vergonha?”. E a verdade é que tínhamos.

Só o fato de sermos questionados já nos deixava sem graça e arrependidos do erro. Ficávamos envergonhados a ponto de, além do imediato pedido de desculpas, fazíamos um registro mental para nunca mais repetirmos aquilo.

Era essa chamada de atenção que nos educava, na prática, a reconhecermos o certo e o errado e a aprimorarmos nossa conduta. Não me lembro de nenhuma bronca que me fez ser uma pessoa pior, pois mesmo em casos de repreensões injustas, aprendi que elas fazem parte da vida e que cabe a mim saber driblá-las da melhor maneira possível.

Mas, diante de uma sociedade que coloca o politicamente correto acima do correto, nos vemos em meio a uma época bem esquisita. Parece que se tornou “errado” chamar a atenção das pessoas e que causar qualquer tipo de embaraço, mesmo diante de atos inadequados, é algo a ser evitado a todo custo.

O problema é que, ao amenizar o erro, amenizamos também a acerto. Ao evitarmos que o outro sinta vergonha, lhe tiramos a oportunidade de crescer e de ser beneficiado pelo poder que há em sentir-se envergonhado. Uma “chamadinha” de atenção causa apenas um tipo de vergonha diluída, que pode ser chamada de constrangimento.

A vergonha é um tipo de dor necessária para a formação de um caráter forte e reto. Mas, como as pessoas estão extremamente sensíveis à dor, elas recorrem a analgésicos poderosos, como a “irreverência composta” e a “ousadia concentrada”, que evitam a dor e camuflam as causas. E, assim, a doença da deseducação acomete cada vez mais pessoas.

Com isso, é muito fácil encontrar quem se sujeite a dizer e fazer coisas das quais coramos só de ouvir, mas que não causam efeito algum em quem pratica. A vergonha não foi desenvolvida nessas pessoas e o pequeno e tímido constrangimento passa rápido depois de uma dose de qualquer um dos muitos “analgésicos” disponíveis no mercado.

A vergonha na cara é mais do que apenas ter educação e respeito para com o próximo. Ela é necessária para uma sociedade mais justa e, de fato, mais inclusiva e tolerante. Sem vergonha nos tornamos como qualquer animal irracional e os resultados estão aí para quem quiser ver. Que cada um de nós sejamos diligentes em fazer a nossa parte por um mundo com mais vergonha na cara.

Patricia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel.  É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo, palestrante e conferencista do evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard. Apresenta quadros de economia na TV Gazeta e Record TV e é facilitadora da RME para o programa mundial WomenWill – Cresça com o Google.

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