R7 Meu Estilo Mulheres usam redes sociais para desabafar sobre o lado doloroso da maternidade

Mulheres usam redes sociais para desabafar sobre o lado doloroso da maternidade

Projeto abre espaço para debater depressão pós-parto, violência obstétrica e outros temas

  • R7 Meu Estilo | Nathalia Ilovatte, do R7

Após dar à luz Vida, Thais sofreu e sentiu culpa por não conseguir amamentar

Após dar à luz Vida, Thais sofreu e sentiu culpa por não conseguir amamentar

Reprodução

Ao engravidar da filha Vida, hoje com um ano e oito meses, Thais Cimino optou por dar à luz na França, País do pai do bebê, para não entrar para as estatísticas de violência obstétrica do Brasil. Teve o parto que sonhou, humanizado e sem intervenções, mas passou por maus bocados depois dele.

— A família do meu marido nos deus as costas. Após duas semanas ele voltou a trabalhar, minha mãe foi embora e eu me vi completamente sozinha. Tive muita dificuldade para amamentar, e quando minha filha tinha 45 dias precisei operar o seio para retirar uma inflamação rara. Eu nunca tinha tomado uma anestesia geral e estava apavorada. A cicatrização da cirurgia era de dentro para fora, não levei pontos, então fiquei com um buraco no seio por um mês.

Embora tivesse planejado amamentar a filha em livre demanda, o abcesso mamário de Thais fez com que Vida começasse com um mês e meio a tomar mamadeira, e logo veio na mãe o sentimento de culpa por achar que não estava dando à filha o que ela precisava.

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—  O que eu pensava era: eu não dei conta de amamentar minha própria filha, eu não consegui criar esse vínculo de amor puro. Parecia que estava deixando de dar essa parcela de amor para ela, e isso gera uma culpa imensa. Hoje eu sei que não sou só eu, não é só comigo que acontece isso, eu não sou a pior pessoa do mundo e posso dar amor para a minha filha de outras maneiras.

Thais demorou um ano para se recompor psicologicamente e aceitar que, mesmo não amamentando, já havia ultrapassado os próprios limites e dado o que tinha de melhor. Conversar com amigos foi fundamental para encarar a situação, e os desabafos lhe fizeram questionar se era a única a sofrer com questões da maternidade. Daí veio a ideia de abrir espaço para que as mulheres falem sobre as dificuldades de ser mãe.

— Achei que tínhamos que ter um espaço pra falar sobre essas dores. A maternidade não é cor de rosa, ela é bem difícil em alguns momentos. E isso não é aceito, não é admitido para a mulher que ela esteja triste, que ela chore, justamente por essa visão que nos impuseram de que a mãe tem que estar incondicionalmente feliz.

Com isso surgiu o Temos Que Falar Sobre Isso, blog que publica desabafos anônimos de mulheres que sofrem com depressão pós-parto, transtornos psíquicos durante a gravidez, problemas com amamentação, perda neonatal ou gestacional, partos traumáticos, prematuridade, violência obstétrica, processo de adoção e outras questões referentes a maternidade.

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Cinco meses depois do início do projeto, o Temos Que Falar Sobre Isso já tem 13 mil seguidores no Facebook, 317 mil visitantes, 20 voluntários e mais de 150 desabafos. Um documentário está em processo de edição, e uma campanha fotográfica está sendo produzida para disseminar apoio a mães que passam por dificuldades.

— Ver que as pessoas confiam nesse espaço, que elas se sentem à vontade pra contar as histórias delas, me mostra que a gente está no caminho certo, que está conseguindo acolher essas mulheres. Elas mesmas já começaram esse movimento de acolhimento umas com as outras. Elas deixam mensagens em resposta aos desabafos e, por mais que os temas sejam bem pesados, está tendo muita empatia e pouquíssimo julgamento. Eu estou muito feliz, porque isso me mostra que eu consegui usar uma fraqueza minha, uma dor, um sofrimento, para ajudar outras mulheres. Era o que eu queria.

Depois do rápido crescimento do projeto, a fundadora do Temos Que Falar Sobre Isso quer levá-lo além. Dar palestras em universidades está nos planos de Thais, que acredita que a única maneira de evitar que mulheres passem por tanto sofrimento quando se tornam mães é ensinando às novas gerações uma nova maneira de olhar para a gravidez, o parto e o pós-parto.

— A preparação tem que começar desde sempre. Acho importantes as rodas de gestantes, grupos de pós-parto, e neles você pode levar seus filhos para que desde pequenos participem dessas conversas. A gente tem que fazer as crianças estarem presentes para entenderem que esse momento é normal.

Para conhecer o projeto: http://www.temosquefalarsobreisso.com

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