Hypeness Como um tuíte racista fez a série número 1 da TV americana ser cancelada

Como um tuíte racista fez a série número 1 da TV americana ser cancelada

Bastou um tuíte, uma única frase digitada e um clique para que o mais aguardado show de humor da TV americana, acabasse cancelada

Como um tuíte racista fez a série número 1 da TV americana ser cancelada

Bastou um tuíte, uma única frase digitada e um clique para que o mais aguardado show de humor da TV americana, a mais bem sucedida estreia de 2018 nos EUA, celebrado pela crítica, pelo público e pelo próprio presidente do país acabasse cancelada em questão de horas. Contratos envolvendo gigantes da mídia americana como o canal ABC e a Disney foram rasgados, e milhões de dólares foram literalmente perdidos por conta dessa única postagem. Antes de entendermos como tudo isso aconteceu, vale lembrar, ou descobrir, quem é a pessoa por trás de tal colossal, retumbante e sombrio fracasso: a comediante americana Roseanne Barr.

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A comediante no lançamento da nova temporada de sua série

No final da década de 1980, Roseane Barr tornou-se a face de um novo e original capítulo no humor americano. Depois de anos de sucesso com seu stand-up, dona de um repertório provocador e, ao mesmo tempo, popular, a estreia de seu sitcom Roseanne tornou-se um marco, por levar à televisão diversos universos até então inéditos com inteligência, graça e imenso sucesso de público e crítica.

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Roseanne apresentando seu stand-up na TV americana, nos anos 1980

O show retratava uma família de classe operária, em que os dois pais trabalhavam fora de casa e viviam os dramas e delícias de uma típica família de classe média americana. Temas espinhosos, como homossexualidade e o fato dos personagens serem acima do peso eram tratados com naturalidade e franqueza, como partes constituintes da classe média americana.

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O elenco da série no final dos anos 1980

Tendo estreado em 1988, Roseanne chegou a ser a série mais vista da TV americana, ficando no ar com imenso sucesso até 1997.

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Rosanne e John Goodman estrelando a série

Ainda que jamais tenha se tornado uma comediante reconhecida internacionalmente, em especial no Brasil, o fato é que Roaseanne Barr havia se tornado um ícone do humor nos EUA, país em que a comédia, especialmente o stand-up, é tratada como um importante traço cultural. Durante 20 anos a volta de sua série foi não só considerada como aguardada por todo o showbusiness americano.

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E em março de 2018 o esperado se deu, com uma nova temporada de 8 episódios anunciada, e a volta do elenco original trazendo a família Conners, como era chamada na série, diretamente de 1997 para 2018. As mudanças das últimas décadas foram apresentadas não só dentro da própria família, mas as transformações sociais, culturais e políticas dos EUA e do mundo foram também retratadas na nova temporada de Roseanne – que foi recebida com grande sucesso de público e de crítica, tornando-se novamente a série mais vista do país.

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O elenco de Roseanne em sua versão 2018

Muito mais coisa, no entanto, mudou do fim dos anos 1990 para cá – inclusive o publico, os paradigmas éticos, os limites e noções do que é certo e errado, o mundo e a própria Roseanne. Ao longo dos anos, a comediante jamais evitou polêmicas, tendo inclusive desafiado um símbolo nacional para criticar o comportamento masculino e dos fãs de esporte, ao cantar com escárnio e deboche o hino nacional americano e depois cuspir no chão em um jogo de beisebol nos anos 1990. As polêmicas de seu humor se transformaram em posições questionáveis mais profundas. Em 2018, no entanto, o cenário é pautado diretamente pelas pessoas através da mais significativa mudança que se pode notar de lá para cá: o advento da internet e das redes sociais.

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Roseanne debochando do hino americano em 1990

Pois, se por um lado a nova temporada de Roseanne estreou no sombrio e assustador país agora “governado” por Donald Trump, por outro a internet trouxe à pauta a necessidade de transformar as mais podres raízes sociais com urgência como possibilidade – e foi através da internet que o show mais visto dos EUA acabou cancelado literalmente em um dia. E tudo começou com um tuíte, não de um hater nem de um crítico, mas da própria Roseanne.

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Antes da série voltar ao ar, conforme a expectativa crescia ao redor de tal hipótese, a personalidade de Roseanne também aos poucos foi retornando ao centro das atenções – e, com ela, uma série de complicadas facetas da comediante ganhou luz. O apoio irrestrito e feroz a Donald Trump trouxe também o irresponsável hábito de propagar as mais absurdas notícias falsas e teorias da conspiração por Roseanne para atacar os que criticavam o atual presidente dos EUA – se tornando uma espécie de porta-voz para os deploráveis hábitos culturais que hoje marcam o país de Trump. O sucesso da série também se daria por representar a “América de Trump” na TV. Sua postura conservadora foi aos poucos cada vez mais, no entanto, se revelando radical e, com isso, tóxica e perigosa. O limite de tal tendência seria mesmo encontrado quando tal inclinação se revelou simplesmente racista.

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Foi justo no momento que, depois de duas décadas, a comediante voltava a estar no topo da fama, que Roseanne decidiu tuitar uma piada venal e violenta sobre Valerie Jarrett, uma conselheira do ex-presidente Barack Obama. Os motivos pelos quais a comediante decidiu atacar pessoalmente Valerie não são claros, a não ser pela dedução do óbvio: Valerie é uma mulher bem sucedida, articulada, inteligente e, acima de tudo, negra – e que ainda defende uma agenda progressista, em defesa da educação e contra o racismo, o preconceito e o ódio hoje propagados diretamente da Casa Branca. No dia 30 de março, três dias após a estreia, uma segunda temporada da série havia sido confirmada, mas no dia 29 de maio, somente dois meses após o sucesso da nova versão da série, Roseanne resolveu dividir com seus seguidores sua opinião sobre Valerie.

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O abominável tuíte de Roseanne

“Irmandade muçulmana e o Planeta dos Macacos tiveram um filho = VJ”, dizia seu post, referindo-se a ex-conselheira de Obama. Como quem espalma a mão sobre o fogo e se surpreende quando sente a pele queimar – ou como se tivesse conhecido a internet e sua dinâmica naquele instante – Roseanne se espantou quando, em questão de minutos, seu tuíte não só havia viralizado, como as reações eram, em sua vasta maioria, do mais intenso repúdio para um comentário duplamente racista – não só comparando uma mulher negra a um macaco, como atacando também os muçulmanos na América.

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Valerie Jarrett

As críticas à Roseanne, que no início tentou justificar sua suposta “piada”, não cessaram. Ao fim do dia, quando toda a mídia norte-americana esperava uma declaração oficial da ABC e da Disney – empresas responsáveis pela produção e transmissão de seu show – e, depois que o próprio elenco da série já havia também repudiado o comentário, veio o veredito: Roseanne seria cancelada imediatamente.

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“A declaração de Roseanne no Twitter é detestável, repugnante e inconsistente com nossos valores, e nós decidimos cancelar seu show”, publicou Channing Dungey, presidente da rede ABC, de propriedade do grupo Disney – e ironicamente a primeira mulher negra a presidir a empresa. Estimativas sugerem que instantaneamente Roseanne perdeu 3 milhões de dólares, mas, considerando que a comediante ganhava cerca de 250 mil dólares por episódio, que uma nova temporada de 13 episódios já estava confirmada – e que outras temporadas certamente viriam –, as publicidades perdidas em potencial e o quanto isso irá impactar no seu futuro, o número de milhões perdidos é inestimável.

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Channing Dungey, presidente da rede ABC

O que viria a ser uma temporada 2019 do show foi transformada em um spin-off, uma nova série, derivada do universo de Roseanne, intitulada The Conners, trazendo a família e os personagens mais uma vez à tela, mas sem a presença da comediante. Calcula-se que a série havia trazido 45 milhões de dólares em anúncios para a ABC em 2018, e que traria mais 60 milhões no ano que vem – e aí entra um dos mais interessantes impactos de tais eventos.

Que o racismo seja um traço marcante não só da cultura norte-americana como de todo o mundo é algo lamentavelmente inquestionável – e, portanto, por mais terrível que seja o comentário de Roseanne, não é de se surpreender que algo assim aconteça. O que é espantoso, e merece ser celebrado, é o fato de uma mega-empresa como a ABC/Disney ter decidido com especial velocidade abrir mão de tais contratos multimilionários a fim de se posicionar de forma inequivocamente contrária ao racismo, sem apelar para relativizações ou apologias para manter os dólares que então choviam por conta do sucesso da série.

Pois se os EUA são, como gostam de afirmar, o país da liberdade de expressão – e o direito de Roseanne de falar as coisas mais horrendas se mantém garantido pela constituição –, tal liberdade também vale para seus críticos e para a própria empresa – e, no país da livre iniciativa e do lucro como filtro de todas as relações, a Disney, mesmo que visando a manutenção de outros lucros, escolheu se posicionar. É direito, afinal, não querer se associar a alguém com tais opiniões e, enquanto ninguém censurou Roseanne, sua punição veio diretamente do e para o ponto essencial da cultura americana: o bolso.

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Valerie Jarrett em entrevista sobre o ocorrido

Os conservadores mais radicais seguem defendendo a comediante, que declarou em prantos que não é racista, mas sim, “uma idiota”- que teria feito uma piada infeliz e nada mais. Valerie Jarret, em resposta, disse estar bem, mas que se preocupa com as pessoas que sofrem casos de racismo mas “não tem um círculo de amigos e seguidores para lhe defenderem”. Infelizmente o provável encerramento da carreira de Roseanne não significará o fim também do racismo como um todo, mas simbolicamente se trata de um passo importante, que não só demonstra novos (e melhores) paradigmas éticos sendo construídos, como também ilustra a força que a internet pode ter, obrigando grandes corporações a serem também melhores e mais humanas.

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